Era noite escura daquelas de fazer tremer as pernas do maior dos corajosos. E o Frango de Dentadura estava entre o maior dos menos corajosos, mas nem por isso poderia desistir agora:
— Vai lá, Frango! Não pode parar agora, senão vai estragar a brincadeira. — Encorajou Clovegildo.
As crianças haviam feito um trato. Tiraram na sorte - ou no azar - para ver quem teria coragem de entrar no Quintal da dona Samambaia, a velha mais assustadora do bairro, e de pegar uma flor do canteiro que ela mais gostava em seu jardim.
— Não valeu! — resmungou o Frango de Dentadura.
— Valeu sim!!! — gritou Tobias — Nós tiramos na sorte, não lembra?
— Sorte? Isso mais parece um azar dos grandes!
A casa de dona Samambaia ficava do outro lado da rua, de frente para a casa de Clóvis. Seriam apenas alguns metros de uma ponta à outra, no entanto, o Frango de Dentadura estava desesperado de medo.
— Ai, meu São Galináceo, protetor das aves! Me ajude! Se a dona Samambaia me vir em seu quintal, é capaz até de chamar o guarda Péricles!
E lá foi o jovem galinho. Lanterna na asa esquerda, tesoura na direita. Essa era uma traquinagem das grandes, daquelas que se trocam por um vale-palmada ou no mínimo um vale-bronca. Mas trato é trato e o Frango de Dentadura não iria decepcionar seus amigos nesta hora. Avançou alguns metros cruzando a rua e parou.
— Será que ele vai ter coragem, Tobias? — perguntou Clovegildo.
— Duvido! esse frango é o maior molenga. — respondeu o cãozinho.
O Frango de Dentadura deu mais alguns passos e saltou o muro da casa de dona Samambaia. Agora era hora de agir. De repente Clovegildo e Tobias ouviram gritos do quintal da velha:
— Mas o que significa isso?! Você, venha já pra dentro, Frangote! - resmungou dona Samambaia lá de dentro.
Os dois, do lado de fora, ficaram preocupadíssimos. Por que inventaram essa brincadeira sem graça? Seria tarde demais para salvar o Frango? Enquanto tentavam encontrar uma solução, ambos lembraram que a velha Samambaia era uma senhora de meter medo. Seu amiguinho ganhara o desafio só pela coragem para entrar no quintal dela.
Já fazia meia hora que o Franguinho estava lá dentro e os dois permaneciam olhando para o muro da velha. Um segundo depois, o portão se abriu. Era o Frango de Dentadura, feliz da vida com duas flores na mão.
— Minha nossa, Frango! Você está vivo? O que aconteceu? Pensamos que a dona Samambaia havia trasformado você numa mosca varejeira! — perguntou Tobias.
— É! Deixou-nos morrendo de preocupação! Diga, o que foi que aconteceu?! — emendou o menino Clovegildo.
— Não aconteceu nada, eu estou ótimo — respodeu o Frango de Dentadura.
Clovegildo, ainda surpreso, perguntou:
— Mas então por que você demorou tanto?
E o galináceo respondeu:
— Ora, a dona Samabaia é um doce de pessoa! Quando entrei no quintal, ela me disse que estava se sentindo muito só e que precisava de alguém para conversar. Me chamou para entrar e ofereceu-me biscoitos e chocolate quente. Foi ótimo ouvir suas histórias. Ela não é nem um pouco assustadora.
Tobias e Clovegildo olharam-se assustados.
— Mas e a flor? Você cortou a flor do quintal sem ela ver? - Perguntou o cãozinho.
— Que nada! Eu contei a ela sobre nosso trato de surrupiar uma flor do quintal e ela me deu duas flores, uma para você, e outra para você. — Enquanto dizia isso, o Frango deu uma flor para cada um de seus amigos — Ah, sim! Além disso, ela disse que vocês serão muito bem vindos na casa dela, mas com a condição de tocarem a campainha antes!
Todos riram levemente, e o desafio que parecia assustador, tornou-se muito interessante. Ganharam uma nova amiga que - diga-se de passagem - é uma ótima contadora de histórias.